No ano de 2015 eu fazia parte da equipe de comunicação da assistência social de Florianópolis. O jornalista frustrado que sou hoje nasceu nas limitações da minha função de estagiário de uma assessoria de imprensa da prefeitura. O cenário social em que eu trabalhava me apresentou diversos personagens inspiradores para minhas matérias nos locais que eu visitava. Apesar dos extensos textos que os dias me rendiam, creio que eu nunca tenha realmente falado sobre a mensagem de cada um que conheci pelas ruas de Florianópolis, afinal, meu trabalho ali era ressaltar o trabalho da prefeitura.  Apesar da contextualização do momento, preciso voltar o foco para personagem principal desse texto: Alexandre Bandarra, o Piloto.

Alexandre era morador de rua e um dos tantos grandes personagens anônimos que Florianópolis já teve. Apelidado de Piloto por conta de sua antiga profissão, naquela época Bandarra já tinha outros costumes bem diferentes dos antigos e uma vida menos glamorosa. Ao menos para quem via de fora. Alexandre era escritor, e foi graças a seu segundo livro que conheci sua história. Certo dia ele apareceu em minha sala e perguntou se eu podia ajudá-lo a vender alguns exemplares do livro “Logoff“. Conversamos um pouco e saímos pelo prédio oferecendo seu trabalho para os funcionários da secretaria. Eu comprei um.

Foto de Vanessa Silveira

Logoff é o segundo livro de Alexandre Bandarra e traz diversas reflexões sobre a jornada do autor e o aprendizado de sua vida morando nas ruas de Florianópolis. A obra foi publicada pela Editora Pistis, com ajuda da Casa de Apoio onde ele morava no momento. O livro pode parecer pequeno por conta de suas poucas páginas, mas a mensagem é tão forte que sua essência se transmite rápido nas primeiras palavras escritas por Bandarra.

O livro tem um tom de autoconhecimento muito forte. Ele mostra carinho pelas pessoas que passaram pela vida do autor ao mesmo tempo que ressalta o amadurecimento que só uma vida de solidão pode trazer. Alexandre conta como o álcool o deixou mais retraído e antissocial de uma forma melancólica, mas de um jeito bonito. Não seria exagero dizer que o livro traz uma mensagem de redenção, mesmo sem o famoso final feliz que insiste em aparecer em obras parecidas. Alexandre Bandarra relata uma viagem ao seu interior de uma forma muito tocante e apresenta suas referências de coração aberto. Seus amigos inusitados e sua banda preferida, Pink Floyd, são citados diversas vezes, com muito carinho. O autor apresenta sua ansiedade ao tentar conviver com outros grupos e demonstra a dificuldade em criar laços depois dos danos que o álcool e a vida nas ruas causaram.

Logoff mostra o quão importante é revisitar o passado para se conhecer a ponto de trilhar um futuro de autoconhecimento e comprometimento.

Na época de lançamento, Logoff era vendido nas ruas de Florianópolis, com próprio autor abordando pessoas para apresentar o seu trabalho.

Alguns anos depois eu encontrei o Alexandre de novo, abatido e longe do cara recuperado que me vendeu Logoff em 2015. Ele não se lembrava de mim, mas conversou como se lembrasse, provavelmente por educação. Na época fiquei triste com a forma que o encontrei, mas ao reler Logoff hoje em dia sei que isso faz parte. A vida é cheia de fases e estar passando por uma boa não é garantia de que a próxima não será ruim. Está tudo bem. O que a gente pode fazer é torcer. E eu torço, de coração, para que ele esteja passando por dias melhores hoje.